Essas pessoas na sala de jantar

Dando prosseguimento (ou início?) às postagens de jantares memoráveis, quero compartilhar o meu.

Minha família, tanto a do pai quanto a da mãe, sempre foi numerosa e por pelo menos duas vezes no ano reuníamos alguns membros da família para comemorar os feriados, geralmente no fim do ano.

Hoje em dia isso não acontece mais, e de repente me vejo sem resposta pra responder o porquê disso.
Quando esse exercício de memória foi proposto num dos jantares do projeto, essas imagens viajaram para o tempo presente imediatamente, de modo que não poderia falar de outras se não delas:

Recordo-me que numa dessas últimas ocasiões, eu deveria ter pouco mais de dez anos, minha mãe e minhas tias faziam pratos com comida brasileira, de repente as mesmas do dia-a-dia, porém incrementadas com recheios ou ingredientes que não me lembrava de comer no cotidiano. As carnes sempre estiveram na mesa também, de boi e de frango pelo menos, às vezes de porco. Douradas!

Os tios ajudavam nos intervalos entre assar a carne e pegar mais bebida, além de montarem uma mesa muito grande no quintal e cuidar do churrasco.
Nós, as crianças, estávamos sempre correndo ao redor da casa. Meus primos e eu temos pouca diferença de idade, nos divertíamos juntos, éramos confidentes, melhores amigos, por mais que mal tenhamos contato hoje em dia.

Lembro-me que sempre íamos comer tarde, ou bem depois da hora que eu já deveria estar dormindo, e eu adorava essa permissão extraordinária pra ficar acordado até mais tarde. Por vezes dormíamos todos juntos, em vários colchões espalhados pela sala, era um tempo muito agradável e que me causa muita nostalgia.

O jantar em si era rápido, delicioso! Mas o ritual de reunião familiar e o compartilhar o alimento eram sem dúvidas o que realmente importava. Algumas vezes o evento durava três ou mais dias, na semana entre natal e ano novo. Lembro que ficava muito ansioso nos dias que antecediam o evento e eram dias de muita festa.

São questões indissociáveis pra mim: cinema, tempo e memória. Imagem, movimento e registro.
Fora toda a significação que há por trás disso, que na maioria das vezes é inconsciente, acho que é disso também que estamos querendo falar.

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No meio da entropia

Uma imagem que sempre esteve fortemente ligada à minha imaginação desde quando tomei conhecimento do projeto era a ceia de Jesus e seus apóstolos. Pode parecer risível  num primeiro momento e de fato é, mas para mim é indissociável a semelhança das imagens que criei. Talvez esse pensamento seja mérito da carolice na minha infância e faça parte ainda do meu subconsciente, ou sei lá de onde eu tirei essa referência.

Fato é que, essa é a imagem que mais me aparece visível quando eu penso no projeto todo do Penhasco. Mas claro, revisitada, sem querer ser desnecessariamente polêmico ou absolutamente carola. Não!

Consigo visualizar uma mesa posta grande retangular no alto do penhasco a poucos metros de um precipício, me parece ser fim de tarde / começo de noite também. Tudo ainda é muito caótico porque há muitos nessa mesa.

Ela não é vista horizontalmente como na de Jesus, pelo contrário, consigo imaginar algo como um travelling out partindo de uma das pontas até a outra. Revelando os seres não exatamente pessoas ou quiçá até sejam pessoas, mas não de uma forma convencional. Imagino trajes nas pessoas e objetos por sobre essa mesa que não correspondam a nossa época. Imagino máscaras e outras alegorias, de repente uma confusão verbal, não necessariamente impedindo a comunicação. Não sei.

Essas pessoas estão nessa mesa, num penhasco, compartilhando o alimento, o momento, as presenças e fazendo o que eu ainda não consegui descobri.

Não sei avaliar direito esse plano, essa espécie de narrativa de um fato. Isso pra mim representa somente a imagem que consigo ver por agora, ainda na entropia. Tenho que descobrir o que elas me dizem ou se sou eu quem quer dizer algo através delas.

Tudo me parece bem fantástico mesmo. Sim, é a imagem que eu vejo, talvez não seja a imagem que eu queira. Talvez nem consiga tê-la, concebê-la, mas é a imagem que movimenta minha imaginação, a princípio. E acho importante manter esse movimento.