Por esse alimento, Uma oração

Primeiro os lábios,

e a língua,

e o estômago,

então o espírito prepare

para o escarro

O sangue destas veias

Nasceu do sangue dela.

A dureza destes ossos

É cria dos ossos dela.

A maciez desta carne nasceu da carne dela

A luz perdida deste olhos, o alcance surdo destes ouvidos,

São as cores e os sons dela,

Em verdade digo, és um como ela,

Dela nasceste,

Nela vives e

Nela apodrecerás.

Pois teu alento é o alento Dela,

Teu sangue o sangue Dela,

Teus ossos os ossos Dela,

Tua carne a carne Dela,

Teus olhos e teus ouvidos são Dela também.

Aquele que se alimenta dela,

Não morrerá jamais.

Primeiro os lábios,

e a língua,

e o estômago,

então o espírito prepare

para o escarro.

Gota d’água

BUARQUE, Chico e PONTES, Paulo. Gota D’Água. Rio de Janeiro, RJ: Civilização Brasileira Ed., 1982, p.160.

JOANA
Tudo está na natureza
encadeado e em movimento –
cuspe, veneno, tristeza,
carne, moinho, lamento,
ódio, dor, cebola e coentro,
gordura, sangue, frieza,
isso tudo está no centro
de uma mesma e estranha mesa
Misture cada elemento –
uma pitada de dor,
uma colher de fomento,
uma gota de terror
O suco dos sentimentos,
raiva, medo ou desamor,
produz novos condimentos,
lágrima, pus e suor
Mas, inverta o segmento,
intensifique a mistura,
temperódio, lagrimento,
sangalho com tristezura,
carnento, venemoinho,
remexa tudo por dentro,
passe tudo no moinho,
moa a carne, sangre o coentro,
chore e envenene a gordura
Você terá um ungüento,
uma baba, grossa e escura,
essência do meu tormento
e molho de uma fritura
de paladar violento
que, engolindo, a criatura
repara o meu sofrimento
co’a morte, lenta e segura

Fome

Tenho fome.
Tenho que comer.
Algo flambado.
Com muito álcool.
Com muito álcool.
Com muito álcool.
Algo que queime sobre a mesa.
Com chamas altas.
Algo chamuscado.
Queimado.
Preto.
Preto.
Tenho que comer algo preto.
Algo consumido pelo fogo.
Tenho fome.
Tenho que consumir algo.
Algo que se perde
No rastro da fumaça.
É assim que me satisfaço.
Com esta perda.
Com esta ausência.
Com este vazio.
Satisfação.
Plenitude.

Tenho fé no vazio!

(Tiro um batom vermelho guardado e passo em meus lábios. Então passo adiante, para que todos da roda o façam).

– (Tom de ladainha) Você vai precisar de um quilo e meio de carne de carneiro, três cebolas médias, 200ml de conhaque, um litro de suco de laranja, sal, dentes de alho, cravo da índia, tempero verde e meio tablete de manteiga. Tempere a carne de carneiro com sal e tempero verde, introduzindo quatro dentes de alho no seu corpo. Aqueça a manteiga e frite a carne de carneiro por dez minutos. Despeje o conhaque na frigideira sobre carne de carneiro, deixe esquentar em fogo alto e incline a frigideira levemente para que o fogo toque na preparação. Tome muito cuidado! Utilize luva térmica e se afaste do fogo quando o conhaque for despejado. Nunca acrescente mais bebida quando a chama estiver ardendo, nem deixe a garrafa aberta perto da chama, pois isso poderá provocar uma explosão. O álcool da bebida vai evaporar com o fogo. Deixe que a chama se apague lentamente e por si só. Pois a bebida deve queimar por completo, deixando somente o aroma especial que torna mais refinado o sabor do prato a servir. Sirva com lava. Lava de vulcão é um perfeito acompanhamento!

(Toma um gole de um chocolate quente caudaloso).

– Deixe a carne de carneiro cozinhar por oito horas. Sob sol a pino. Deixe a carne se queimar sob o sol a pino por oito horas e pronto. Não faça mais nada e se deixe cair de boca, pois esta é sua pretíssima carne de carneiro.

(Comem)

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– Mil Sóis explodindo no céu; sou Noite, destruidora de mundos.

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Quebrando o gelo

A comida está posta a mesa, todos sentados no momento, ninguém come.
P1 Só faltou um porco assado pra dizer que esse é um banquete legítimo, aqueles a pururuca com uma maçã na boca.
P2 Por mim não teria, acho terrível
P3 Você é vegetariana?
P2 Sou.
P3 Mas come peixe….
P2 Não, fazem 3 anos já que não como nada de carne, não faz falta pra mim. Aquele que semeia a morte e o sofrimento não pode colher a alegria e o amor, infelizmente a minoria, como eu, pensa assim.
P1 Eu vi um filme que alguns bandidos se reuniram para um grande roubo,  um deles era criador de porcos. Ele afirmou que um porco consome 90Kg de carne crua em 8 minutos, ou seja, um porco consome 900g de carne crua por minuto. Olha a ganância do bicho, depois nós é que somos cruéis.
P4 Gosto dos porcos porque eles nos olham de igual para igual, mas comer  90Kg de carne crua.. 90Kg é o que pode pesar um homem não é mesmo?
P1 Um bandido certamente criava porcos para sumir com os cadáveres.
P3 Será que os porcos comeriam a si mesmos?
P4 Certamente, o gosto da carne é forte e adocicado, assim como o da carne humana,  não sou eu que afirmo, já fiz pesquisa sobre antropofagia e alguns astecas tinham a prática do canibalismo, serviam a carne com milho e especiarias.
P2 Nós já temos consciência do que fazemos, podemos nos alimentar sem matar, purificados podemos viver melhor, se relacionar melhor com o mundo, agredir menos, com certeza a vida de todos desse Planeta seria mais amável se houvesse menos sofrimento, os animais são como nós, sentem dor, sofrem..
P1 Podemos mudar de assunto? Já que a maioria aqui mal se conhece, poderíamos proibir de entrar em assuntos como religião, política, futebol e vegetarianismo!
P4 Prefiro assim também.
P3 Me interessa essa antropofagia toda, é um lado obscuro do ser humano.
P2 (interrompe) Lindo dia não? O Sol, o verde, temos um presente , essa paisagem é um presente na vida da gente.
P1 Aproveitamos então, porque quando a natureza é escassa o homem pode ser muito cruel.

Subjetiva

(Em subjetiva)

 – Que bom que você veio.

 – Eu vim por você.  

 – Eu também.

 – Acho que todos nós.

 (Todos dão as mãos e fazem uma ciranda em torno da câmera. Cantam olhando para ela. A imagem embaça. Black out de alguns segundos. A imagem retorna embaçada. Começa a focar: todos estão vomitando).