belo e côncavo como um abismo

 

“(…) não fugir de meus defeitos, meus defeitos, eu vos adoro, minhas qualidades são tão pequenas, iguais às dos outros homens, meus defeitos, meu lado negativo é belo e côncavo como um abismo. O que não sou deixaria um buraco enorme na terra. Eu não agasalho meus erros.”
Perto do Coração Selvagem, Clarice Lispector.

desaprendendo a brincar

Assusta-me a dificuldade em reconhecer qualquer principal refeição, ou mesmo umas que sejam notadamente mais marcantes que outras… Sinto-me escolhendo meio aleatoriamente entre um conjunto muito mal delimitado de ocasiões ao sabor do que me acode à memória.

Afasto as circunstâncias familiares de certa regularidade. Lembro das refeições acampando, no mato.

Lembro de uma, na casa da segunda menina que me tirou o chão. Filha de um colega do meu pai, era uma confraternização entre os dois núcleos familiares. Cinco crianças. Ela e o irmão, eu e meus dois irmãos. Nós dois os mais velhos. Ela. Éramos crianças, mesmo. Dez e nove anos, os primogênitos.

Jogamos queimada e assistimos Esqueceram de Mim 2, justo enquanto comíamos o frango xadrez, com castanhas e amendoins que eu não posso esquecer. Brincávamos e nos divertíamos na cumplicidade de irmãos mais velhos.

Mas ela não era minha amiguinha. E eu não trabalhava, à época, com a noção de flerte. Era uma paixãozinha, mesmo, de corar as faces, de pensar escondido.

memória e dor

Enquanto procurava uma memória de uma refeição para postar aqui tive uma dificuldade de relembrar uma situação específica, demorei para no meio do vento que é o aglomerado de coisas das quais me lembro tocar algo de sólido, algo em que eu realmente me lembrasse do lugar, da situação, da pessoa. Milhares foram as refeições em família ou entre amigos, momentos de alegria, tédio ou rotina, mas só um dor muito forte foi capaz de guardar em mim essa situação em forma de imagem, com a iluminação, a cor, as roupas e um pouco do cheiro.

Era meados de 2007, e eu então, namorava há já um tempo. De alguma forma acho que eu sabia que uma hora isso aconteceria, mas me agarrava àquele relacionamento como uma criança que eu ainda era um pouco mais do que sou hoje. Eu havia dormido na casa dos pais dela e, pela manhã, tomávamos café em silêncio, na cozinha clara, branca e azul, e então ela disse, assim, de uma vez “acho que eu não quero mais namorar”. Eu não lembro de ter dito nada, acho que ela vestia branco, de manhã o cheiro do corpo é sempre mais forte. Eu só chorei, sem som, lembro de ela me pedir para que eu dissesse algo, e acho que eu não disse, em nenhum momento. Chorei, calada, não havia o que entender, era o fim. Peguei minhas coisas, e fui chorando no ônibus, em silêncio.

A dor e o abandono tem esse poder no meio da memória. Identifico-me, sinceramente, muito pouco com o que eu era naquela época, os cinco anos que se passaram provocaram mudanças enormes na forma como lido comigo e com o mundo e na minha própria identidade, a forma como entendo a mim mesma. O relacionamento em questão se transformou depois de um tempo numa amizade sólida, mas ao lembrar desse dia é como se por um pequeno momento eu voltasse a ter 17 anos novamente e como se eu mais uma vez sentisse essa dor sem explicação que é a sensação do abandono.

A foto é do vento batendo na cortina da janela da cozinha em questão.

Essas pessoas na sala de jantar

Dando prosseguimento (ou início?) às postagens de jantares memoráveis, quero compartilhar o meu.

Minha família, tanto a do pai quanto a da mãe, sempre foi numerosa e por pelo menos duas vezes no ano reuníamos alguns membros da família para comemorar os feriados, geralmente no fim do ano.

Hoje em dia isso não acontece mais, e de repente me vejo sem resposta pra responder o porquê disso.
Quando esse exercício de memória foi proposto num dos jantares do projeto, essas imagens viajaram para o tempo presente imediatamente, de modo que não poderia falar de outras se não delas:

Recordo-me que numa dessas últimas ocasiões, eu deveria ter pouco mais de dez anos, minha mãe e minhas tias faziam pratos com comida brasileira, de repente as mesmas do dia-a-dia, porém incrementadas com recheios ou ingredientes que não me lembrava de comer no cotidiano. As carnes sempre estiveram na mesa também, de boi e de frango pelo menos, às vezes de porco. Douradas!

Os tios ajudavam nos intervalos entre assar a carne e pegar mais bebida, além de montarem uma mesa muito grande no quintal e cuidar do churrasco.
Nós, as crianças, estávamos sempre correndo ao redor da casa. Meus primos e eu temos pouca diferença de idade, nos divertíamos juntos, éramos confidentes, melhores amigos, por mais que mal tenhamos contato hoje em dia.

Lembro-me que sempre íamos comer tarde, ou bem depois da hora que eu já deveria estar dormindo, e eu adorava essa permissão extraordinária pra ficar acordado até mais tarde. Por vezes dormíamos todos juntos, em vários colchões espalhados pela sala, era um tempo muito agradável e que me causa muita nostalgia.

O jantar em si era rápido, delicioso! Mas o ritual de reunião familiar e o compartilhar o alimento eram sem dúvidas o que realmente importava. Algumas vezes o evento durava três ou mais dias, na semana entre natal e ano novo. Lembro que ficava muito ansioso nos dias que antecediam o evento e eram dias de muita festa.

São questões indissociáveis pra mim: cinema, tempo e memória. Imagem, movimento e registro.
Fora toda a significação que há por trás disso, que na maioria das vezes é inconsciente, acho que é disso também que estamos querendo falar.