Sobre Gustavo Pinheiro

absorto no prazer de viver...

desaprendendo a brincar

Assusta-me a dificuldade em reconhecer qualquer principal refeição, ou mesmo umas que sejam notadamente mais marcantes que outras… Sinto-me escolhendo meio aleatoriamente entre um conjunto muito mal delimitado de ocasiões ao sabor do que me acode à memória.

Afasto as circunstâncias familiares de certa regularidade. Lembro das refeições acampando, no mato.

Lembro de uma, na casa da segunda menina que me tirou o chão. Filha de um colega do meu pai, era uma confraternização entre os dois núcleos familiares. Cinco crianças. Ela e o irmão, eu e meus dois irmãos. Nós dois os mais velhos. Ela. Éramos crianças, mesmo. Dez e nove anos, os primogênitos.

Jogamos queimada e assistimos Esqueceram de Mim 2, justo enquanto comíamos o frango xadrez, com castanhas e amendoins que eu não posso esquecer. Brincávamos e nos divertíamos na cumplicidade de irmãos mais velhos.

Mas ela não era minha amiguinha. E eu não trabalhava, à época, com a noção de flerte. Era uma paixãozinha, mesmo, de corar as faces, de pensar escondido.

pular do penhasco, a beira do abismo e o meio-fio

Há alguns meses eu encontrei este vídeo. É uma espécie de curta metragem promocional, que reúne trechos de um documentário de 40′ sobre franceses praticantes de base jump slackline – que eu adoraria chamar, simplesmente, de “corda bamba”, sem que parecesse uma birra com estrangeirismos.

O vídeo tem planos lindos, embora recheado de clichês de filmes esportivos. Mas o que me interessa, especialmente, a par o cenário, é a velha questão da vertigem (se estiverem sem tempo/paciência, adiantem até 10′ e pouco! Vale a pena!) provocada pelo “risco”: equilibrar-se no meio-fio não é como equilibrar-se à beira do penhasco. Ambos são limites, beiras, beiradas. Mas o que está em jogo faz toda diferença.

– é uma fraga, fraga?

Os comentários feitos a este post pelo caríssimo amigo Murilo Constantino [noutro fórum, como vocês podem ver] me deixaram com a impressão de que o pedacinho da escarpa devoniana que encontramos e que consideramos uma possível locação para o filme é realmente uma escolha especial.

O Murilo pontuou, entre outras coisas, que talvez não haja, na região, uma vista tão ampla e que dê para um vale cujo desnível é tão radical como ali. E, de fato, vê-se Campo Largo e Curitiba; tem-se uma clara noção do que seja o primeiro planalto; e ao fundo, no horizonte, a crista formada pela Serra do Mar surge surpreendente alta!

O acesso de carro é muito fácil e anterior ao pedágio. É possível filmar o paredão de um ponto de vista quase frontal de outro lugar igualmente acessível e próximo. O platô que antecede o paredão é plano e, em alguns pontos o mato está baixo, quase um pasto. O lugar onde o jantar poderia acontecer é um ponto a escolher, entre outros que podem abrigar outros desdobramentos da cena. A equipe/personagens se deslocam pouco e a continuidade de espaço fica sugerida mas com novas e incríveis possibilidades de mise-en-scène!

A grande dificuldade desta locação é a captação de som direto, para a qual, à beira do penhasco, é presença constante o ruído característico da rodovia. Acontece ali um fenômeno acústico incrível! Afastando-se 20, 30 metros da beirada, o som da rodovia é quase inteiramente refletido pelo paredão, absorvido pelo mato e SOME! É impressionante! Isso nos dá algumas possibilidades de contornar a dificuldade com o som!

Além disso, a paisagem tem um dado forte, que eu particularmente curto, que é uma fábrica de cimento enorme, apequenada no todo da paisagem mas impossível de ignorar. Para as cenas noturnas, creio inclusive que ela constitua uma referência útil de luzes à distância, conferindo profundidade à vista do vale.

Vamos visitar, ainda, a pousada Cainã, também em São Luiz do Purunã, que parece que também tem uns paredões incríveis e voltados para o Leste!

Um penhasco, uma penha, uma fraga.

– ‘tá vendo aquelas formações lá? Então, é lá que a gente quer chegar!

Domingo passado iniciamos a pesquisa de locação para a cena do jantar no penhasco. Visitamos lugares mais próximos como a pedreira Paulo Leminski ou o Parque Tanguá apenas para nos certificar de que não estaríamos descartando uma possível locação de logística fácil simplesmente por ser ao lado de casa. A falta de um penhasco propriamente dito [ainda quero explorar melhor esta definição] e a paisagem urbana afastaram de vez tal hipótese.

Fomos, então, em direção ao segundo planalto, guiados pela memória das formações rochosas da região de São Luiz do Purunã e por uma pesquisa breve feita no Google Earth.

Fizemos uma primeira tentativa na estrada que dá acesso à Sociedade Thalia e encontramos um primeiro penhasco, que tinha até uma queda d’água meio escondida pelo mato! Dali, tínhamos vista para um outro penhasquinho, de acesso aparentemente fácil. Os inconvenientes eram uma serraria logo abaixo, um tanto predominante na vista, e um poste postado justo à beira do penhasco.

Percorremos a Estrada da Faxina buscando as Escarpas do Açungui, mas não nos pareceu que haja um acesso fácil até elas.

Chegamos, afinal, a uma locação bastante adequada, um ponto visível da estrada e que chama bastante atenção, à esquerda do viaduto antes do pedágio. São uns paredões em que eu reparo desde criança, quando passava por esta estrada rumo à casa dos meus avós, então vivos e morando em Cruzeiro do Sul, norte do Paraná. Como bem observou a Tamíris, esta busca é sui generis porque os escarpados são uma espécie de não-lugar [esta expressão eu trouxe agora], ou ao menos lhes falta o aspecto institucional [este termo foi que a Tamíris usou] que dá nome aos lugares, que os torna acessíveis, referenciáveis. Foi, portanto, assim que conseguimos acesso aos portentosos penhascos dificílimos de ignorar por quem quer que trafegue pela 277 sentido interior: “Como é que faz pra chegar lá?”, foi a pergunta que fiz à prestativa funcionária do pedágio.

Mais ou menos instruídos, fomos primeiro a um ponto de onde se tinha uma vista das paredes, do outro lado do vale, em relação à estrada. Quando nos dirigimos, afinal, aos penhascos propriamente ditos, descobrimos que são um ponto de prática de escalada e que o acesso é bastante fácil, sendo possível chegar de carro até bem perto de onde seria ideal gravarmos [à beira do abismo]. A D. Elza, que tem uma propriedade numa área em frente ao campo que desemboca nos paredões, não sabe de quem são as terras mas falou que o acesso ao lugar é livre e que não haveria problema em visitarmos o local ou filmarmos ali. Cogitei que talvez a porção elevada pertença aos terrenos lá de baixo e que por isso, talvez, a D. Elza não conhece os donos. Essa idéia reforça a noção do penhasco como uma espécie de não-lugar.

[a continuar: – prós e contras do melhor lugar até agora; – o que ainda há que ver?; – o que é um penhasco?; – à beira do abismo!]

uma ótima complementaridade

É ótimo que haja esta complementaridade entre o título do blog e o assunto cujo simbolismo melhor exploramos até então. Nossas reuniões são jantares, nosso exercício de memória proposto está sendo o da memória de um jantar (ainda devo a minha!), lemos e conversamos sobre a Santa Ceia mas… e o abismo?

Estamos à beira. Penhasco, abismo… a Clariana mencionou certas contingências em que se coloca quem fica à beira.

Complementares que são no nosso projeto, o penhasco e o jantar, a nutrição biológica e o risco mecânico da queda, parecem-me de alguma forma também opostos. Parece-me questão de ordem tratar ora de um, ora de outro, em separado. Entretanto, a relação entre locação e ação, uma certa continência que a primeira exerce sobre a segunda e que o título do blog parece explicitar – afinal, onde se dá essa ação? Onde se passa esse filme? No penhasco? – há de nos obrigar a aproximar as idéias de refeição e jantar, de penhasco e abismo, em sua diversidade e, em certa medida, também em seu antagonismo simbólico.