Cena X

EXT. PENHASCO – ANOITECER

 

Xs 5 personagens comem o alimento negro em silêncio, o espantalho permanece imóvel à cabeceira da mesa. Elxs se ralacionam por olhares, grunhidos e ruídos de mastigação criando uma crescente sinfonia de sons e de montagem. Num ímpeto, todxs levantam ao mesmo tempo, pegam no espantalho com força, desmembrando-o, se dirigem juntxs à beira do penhasco como um corpo só e lançam o corpo mutilado e frágil do homem inanimado vale abaixo. Se olham. Caminham silenciosos até a mesa, ainda de pé colocam na boca o que resta da comida, mastigam um pouco e em seguida cospem. Escurece.

determinando dramaturgia(s)

[ATENÇÃO: ALTO DE NÍVEL DE SPOILER VISIONÁRIO DE UM FILME QUE AINDA NÃO EXISTE

Esse promete ser um post longo e cheio de informações explícitas sobre o futuro conteúdo do filme. Tome a decisão de lê-lo conscientemente caso seja um futuro espectador.]

Nos últimos encontros começamos a definir acontecimentos numa linha do tempo que tem como base a luz do dia, definindo três momentos: a claridade, o pôr do sol e a noite. A diferença, a especificidade e a relação entre o que acontece em cada um destes momentos nos tem sido definitiva em divagações e definições sobre este filme. Também pudera – além do fato de termos como locação uma externa exuberante, onde a luz se coloca imperativa, paira no ar desde o início um gosto pelo fantástico que logo agarrou-se ao que o escuro tem a oferecer em contraponto com a luz a nível de possibilidades de imagens e ações. Possibilidades estas que nos levam a repetir cada vez mais durante os encontros de criação “Tá ficando cada vez mais bizarro” ou “Estamos loucos”. Agradeço por isso, penso num verso do Secos que gosto especialmente, que o vinho quente do coração nos suba à cabeça. Está subindo. E nossas idéias se alimentam umas nas outras. A loucura que nos invade é o próprio estado de espírito daqueles que visionam uma imagem. É muito mais importante, ao menos agora, buscar e se entregar a esta loucura do devaneio do que racionalizá-la. Pela potência do mistério, seguimos.

Superada esta introdução, este texto pretende sumarizar e sintetizar uma pequena escaleta dramatúrgica que será base para um exercício de todos que agora se engajam na construção deste filme – o de escrever, de fato, cenas, com cabeçalho, diálogos, rubricas e todo o pacote de convenções estruturais de um roteiro.

O primeiro momento está naturalmente mais desenvolvido porque textos próximos de cenas já foram escritos sobre as chegadas.

DIA

instauração – chegadas – criação da tensão (medo) ainda sem direcionamento – relações flutuantes

montagem paralela: imagens de estrada captadas de um carro em movimento / planos próximos de um corpo que escala uma pedra / o carro estaciona numa estrada de chão, em frente a uma porteira  / P1 (Ana) ancora-se no topo do penhasco, olha em volta, ambienta-se / P2 (Fabiano) anda por um campo aberto / P1 senta-se a mesa, tira seu abrigo de escalada – há um espantalho na cabeceira da mesa e comidas negras servidas / P2 chega ao penhasco

P3 (Isadora) está deitada encostada numa pedra, perto do penhasco, mas não nele. Acorda meio amassada, prepara-se, passa carvão sobre o rosto como maquiagem. Cambaleia até o penhasco, senta-se.

P4 (Ailen) chega dando boa tarde a tudo e a todos, espreguiça-se sob o sol. Senta-se.

P5 (Silvia) chega ainda não sabemos como.

(a ordem pode variar)

Eles falam. O que falam? São muito particulares, como são? Superam o medo e comem. O Sol começa a cair

PÔR-DO-SOL

silêncio – a refeição continua e termina. a tensão chega ao seu ápice e revela a origem do medo que será “eliminada” – o espantalho é jogado do penhasco bem no limite da noite.

NOITE

escuro – lado negro – inconsciente – cuspir/vomitar – relações mais estabelecidas

alguém pensa em se jogar

como eles se vão? se vão?

(momento adicional de uma estrutura circular: NASCER DO SOL)

P6 (Ricardx) carrega os pedaços de um móvel, uma mesa, pelo campo, chega ao penhasco, monta a mesa, uma toalha por cima, comidas negras sobre a mesa. Senta-se à cabeceira, vira um espantalho.

experimento com comidas e vendas I

– Cica… Cica… Doçura na boca mammãe.

– Bebe meu bem! Bebe meu bem!
– Travou na língua, foi doce, já não mais.
Não mais o doce, nem amarelo nem romã nem framboesa.
(palavra que não consigo entender) na boca. Não mais a mãe, não mais o pai, não mais meu bem.
O visgo, a gosma, o ácido. Infância perfumada.
– Não bota na boca meu bem!
– Na ponta da língua, no corpo da língua, no fundo da língua já foi meu bem.
Agora, só o céu da boca.

Sílvia Monteiro

Fechamos os olhos para, talvez, sentir mais e melhor. Beijo de olhos fechados, toco, abraço, sinto o sol, a brisa… Quando eles se abrem parece que algo se perde, vai embora, ou quem sabe, fica aqui dentro aguardando uma nova oportunidade!
Fecham meus olhos para que experimente, ali estamos eu, minhas primas, comidinhas de brincadeira de “casinha”, bicho da seda que fica no pé de jabuticaba roxa quaaaase preta (açaí), antes de tirar a venda alguém diz – é no pé de amora – e é roxa quaaaaase preta, quando está beeeeeem madura!
Ah! Abre-se a cor amarela – “amarelo manga” – manga com sal que eu gosto, mas só do ohos abertos, pimenta, manjericão… é tanta coisa que meus olhos reconhecem…
Será que tudo que eu gosto, digo, tudo mesmo, pessoas, sabores, lugares mudariam se eu não os enxergasse?

Isadora Terra

I
Queima a língua no guento.
Virtuosa preparação de uma culinária maldita sobreposta na mesa, ingredientes secretos e proibidos são armas nas mãos de crianças selvagens.
Ele lava a bota, que caiu na sopa. Bélica é a glória, a fortuna e o grasnido dos silenciados.
II
Do pulso verte o sangue azul gotejado das guilhotinas jacobinas, pinga na teta da cabra albina. Sem voz está a anciã na ponta. Ponta. Ponta do arranha-céu.
III
Virtudes matarão.
Ricardx Nolascx