Sobre Douglas Henrique Almeida

imagem, movimento e memória

Hay quien dice …

Citação

Hay quien dice que estoy como una cabra;
lo dicen, lo repiten, ya lo creo;
pero soy una cabra muy extraña
que lleva una medalla y siete cuernos.
¡Cabra! En vez de mala leche yo doy llanto.
¡Cabra! Por lo más peligroso me paseo.
¡Cabra! Me llevo bien con alimañas todas.
¡Cabra! Y escribo en los tebeos.
Vivo sola, cabra sola
—que no quise cabrito en compañía—,
cuando subo a lo alto de este valle,
siempre encuentro un lirio de alegría.
Y vivo por mi cuenta, cabra sola;
Que ya a ningún rebaño pertenezco.
Si sufrir es estar como una cabra,
Entonces sí lo estoy, no dudar de ello.

Cabra Sola, de Gloria Fuertes / Poeta de Guardia, Barcelona, 1968.

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Sobre caprinos

Durante esses últimos dias os caprinos do Penhasco têm me assombrado pela ausência. Pela falta de forma. Considerei carinhosamente chamar de caprinos esses habitantes do Penhasco, ignorando parcialmente ou mesmo absolutamente a carga simbólica que esse termo/ser aparentemente carrega.
Houve uma menção em nosso último jantar que achei bastante pertinente: a de tratar de alguma inquietação ou experiência própria na hora de lidar com a personagem ou o ator. Ou a entidade caprina, termo que considero ser algo mais próximo do que está se formando dentro da minha cabeça e que ainda não consigo externalizar de uma forma racional, tanto pra mim quanto pra quem eu quero que entenda a obra – o expectador?
Quem ou o que são esses caprinos? O que fazem e de onde vêm? Por algum tempo essas questões não me eram totalmente relevantes, pois esperava que a obra encontrasse isso por si só em algum momento (e acho que ainda espero), é bom que continuem não sendo daqui pra frente?
Temos poucos dias para começarmos a reconhecer esses caprinos finalmente personificados (não definitivamente), e não sei se seria algo bom propor que até lá cada um compartilhasse as expectativas que tem desse encontro no Penhasco – com as cabras.
A ideia de uma experiência pessoal refletida na tela num primeiro momento me assusta. Falta de costume, pois é algo com o qual estou disposto a trabalhar. Mas é algo que sinto que precise de um trabalho muito minucioso no tratamento, e acima de tudo tempo. Como bom capricorniano que sou, não sei se seria capaz de tratar de uma experiência pessoal com outra pessoa a fim de que ela expressasse o que eu espero sem limitar a liberdade da mesma. Falta-me tato, falta-me tempo.
Mas espero realmente que nesse encontro os caprinos se apresentem como tal, simbólicos que seja. Representando ou sendo o que são, representando eles mesmos. Mais do que representações ou personas. Algo mais.
Caprinos, por vezes solitários por vezes em grupos, reúnam-se! Subiremos o penhasco pelo caminho mais difícil, com a paciência que nos é inerente. E lá no topo, no limite, no que vem antes do além e do desconhecido, um banquete nos espera.

Era incrível…

Chegamos!

Era um lugar muito alto e onde ventava sem parar.
Havia uma mesa posta com vários lugares. Havia sobre ela panelas grandes, pratos, bandejas, formas e recipientes repletos de comida. Havia também muitos tipos de bebidas e taças.
A noite ia chegando e notamos que as velas já estavam acesas e não apagavam com o vento.

Era incrível…

Havia um piano e uma harpa em lados opostos próximos à mesa. Mas não havia música.
As cadeiras eram enraizadas no chão, como se desde sempre pertencessem ao lugar. A mesa era de pedra, fria, gelada. Porém a comida se mantinha quente.

Éramos dois!

Chegamos ali abrindo os olhos e tudo parecia muito convidativo. Não sei se nos conhecíamos, mas não trocávamos nenhuma palavra. Seu rosto expressava poucas emoções ao mesmo tempo em que me parecia levemente distorcido se prestasse mais atenção.
Eu não tinha certeza, mas acho que ouvia o som do mar: das ondas e do fundo ao mesmo tempo. Mas não procurei a fonte do som, talvez estivesse dentro da minha cabeça.

Ele me olhava, eu olhava pra ele.

Enquanto esperava, imaginava quem poderia ter tido a ideia de um jantar no penhasco e de como isso iria acontecer.
Qual era o motivo? Qual era o sentido?
Mas quando sentei junto a mesa senti que também eu pertenceria àquele lugar.
Então tudo se tornou natural.

Um relato de uma memória vaga…

Essas pessoas na sala de jantar

Dando prosseguimento (ou início?) às postagens de jantares memoráveis, quero compartilhar o meu.

Minha família, tanto a do pai quanto a da mãe, sempre foi numerosa e por pelo menos duas vezes no ano reuníamos alguns membros da família para comemorar os feriados, geralmente no fim do ano.

Hoje em dia isso não acontece mais, e de repente me vejo sem resposta pra responder o porquê disso.
Quando esse exercício de memória foi proposto num dos jantares do projeto, essas imagens viajaram para o tempo presente imediatamente, de modo que não poderia falar de outras se não delas:

Recordo-me que numa dessas últimas ocasiões, eu deveria ter pouco mais de dez anos, minha mãe e minhas tias faziam pratos com comida brasileira, de repente as mesmas do dia-a-dia, porém incrementadas com recheios ou ingredientes que não me lembrava de comer no cotidiano. As carnes sempre estiveram na mesa também, de boi e de frango pelo menos, às vezes de porco. Douradas!

Os tios ajudavam nos intervalos entre assar a carne e pegar mais bebida, além de montarem uma mesa muito grande no quintal e cuidar do churrasco.
Nós, as crianças, estávamos sempre correndo ao redor da casa. Meus primos e eu temos pouca diferença de idade, nos divertíamos juntos, éramos confidentes, melhores amigos, por mais que mal tenhamos contato hoje em dia.

Lembro-me que sempre íamos comer tarde, ou bem depois da hora que eu já deveria estar dormindo, e eu adorava essa permissão extraordinária pra ficar acordado até mais tarde. Por vezes dormíamos todos juntos, em vários colchões espalhados pela sala, era um tempo muito agradável e que me causa muita nostalgia.

O jantar em si era rápido, delicioso! Mas o ritual de reunião familiar e o compartilhar o alimento eram sem dúvidas o que realmente importava. Algumas vezes o evento durava três ou mais dias, na semana entre natal e ano novo. Lembro que ficava muito ansioso nos dias que antecediam o evento e eram dias de muita festa.

São questões indissociáveis pra mim: cinema, tempo e memória. Imagem, movimento e registro.
Fora toda a significação que há por trás disso, que na maioria das vezes é inconsciente, acho que é disso também que estamos querendo falar.

No meio da entropia

Uma imagem que sempre esteve fortemente ligada à minha imaginação desde quando tomei conhecimento do projeto era a ceia de Jesus e seus apóstolos. Pode parecer risível  num primeiro momento e de fato é, mas para mim é indissociável a semelhança das imagens que criei. Talvez esse pensamento seja mérito da carolice na minha infância e faça parte ainda do meu subconsciente, ou sei lá de onde eu tirei essa referência.

Fato é que, essa é a imagem que mais me aparece visível quando eu penso no projeto todo do Penhasco. Mas claro, revisitada, sem querer ser desnecessariamente polêmico ou absolutamente carola. Não!

Consigo visualizar uma mesa posta grande retangular no alto do penhasco a poucos metros de um precipício, me parece ser fim de tarde / começo de noite também. Tudo ainda é muito caótico porque há muitos nessa mesa.

Ela não é vista horizontalmente como na de Jesus, pelo contrário, consigo imaginar algo como um travelling out partindo de uma das pontas até a outra. Revelando os seres não exatamente pessoas ou quiçá até sejam pessoas, mas não de uma forma convencional. Imagino trajes nas pessoas e objetos por sobre essa mesa que não correspondam a nossa época. Imagino máscaras e outras alegorias, de repente uma confusão verbal, não necessariamente impedindo a comunicação. Não sei.

Essas pessoas estão nessa mesa, num penhasco, compartilhando o alimento, o momento, as presenças e fazendo o que eu ainda não consegui descobri.

Não sei avaliar direito esse plano, essa espécie de narrativa de um fato. Isso pra mim representa somente a imagem que consigo ver por agora, ainda na entropia. Tenho que descobrir o que elas me dizem ou se sou eu quem quer dizer algo através delas.

Tudo me parece bem fantástico mesmo. Sim, é a imagem que eu vejo, talvez não seja a imagem que eu queira. Talvez nem consiga tê-la, concebê-la, mas é a imagem que movimenta minha imaginação, a princípio. E acho importante manter esse movimento.