Era uma ótima tarde de costume

Costumava estar lá dia sim dia não.

Dava boa tarde para os arames enfarpados no final da estrada, aos matagais que logo pisava. Boa tarde para os sapos que pulavam inconvenientemente pelas poças que as incansáveis chuvas faziam. Pisava nos galhos mortos e caídos e afastava o alto mato que insistia em bater na sua cara.

Sabia o caminho pelas pedras, pela leve lama acumulada. Chegava no penhasco e dava boa tarde ao infinito que mostrava caminhões e carros andando numa estrada ao longe.

Dava boa tarde aos matinhos que nasciam por entre as pedras grandes e velhas. Dava boa tarde, boa tarde, boa tarde. Boa tarde.

Estendia o seu corpo ao céu, de maneira a alongar os membros atrofiados. Olhava ao seu redor e dava boa tarde.

Tudo parecia como de costume, como uma bela e boa tarde aos arredores da cidade.

Boa tarde ao sujeito barbudo, à sua mesa elegantemente presente e a suas mãos carentes de cuidados. Boa tarde, disse, já que era uma tarde normal, bela e boa.

Boa tarde, disse de novo ao ver, de novo, aquele pote de azeitonas negras amassadas.

Boa tarde ao bode, boa tarde, diz .

Boa tarde.

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2 thoughts on “Era uma ótima tarde de costume

  1. Adorei que vc é a única que vem tranquila… É bom isto, pode ser o maior fator de estranheza neste contexto.
    ;P

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