sobre parentes e prazeres

Ao pensar em refeições compartilhadas, muitas memórias me vêm à mente. Mas uma,talvez, faça muito sentido retratar. Por ser doce, por me ser cara, por estar eu nesse momento acreditando (ou tentando) nas coisas raras da existência, no desejo, na pulsão de vida, e por ser tão antiga e ainda assim permanecer com tanto frescor em meu coração.

Me lembro de muitas coisas daquele Natal : de meus primos em minha casa, como raramente acontecia – os Natais não costumavam ser em nossa casa – o que me trouxe nesse Natal específico um saboroso orgulho de meu lar, acolhendo os meus queridos, os primos, únicos amigos na infância e que até hoje me são tão especiais.

Me lembro dos presentes escondidos sob a tv, do videogame do Mario Bros que meu primo ganhou, e ficou exultante, das cantorias de violão com meu pai, presentes, também, até hoje em nossas vidas, mas das quais nesse Natal só me lembro através de uma foto alegre e calorosa que algum parente guardou e veio a postar recentemente no facebook. Ah, as memórias compartilhadas, tão distintas entre si, tão falaciosas e fragmentadas. A memória dos fatos parece pertencer ao terreno das coisas tão grandes que um ser só não é capaz de reter sozinho, é preciso que se divida as responsabilidades. Assim estabelecido, cada um fica responsável pelo que lhe tocou o coração. Tendo todos, ao final, uma leve sensação de Alzheimer e um mosaico Picassiano do que acolheu o coração da família.

A mim coube guardar um pedacinho de maior prazer da noite, junto a meu primo Lucas, uma das pessoas mais especiais que conheço, com quem já dividi muitas coisas, com quem sempre me senti em casa, e que hoje tem estado mais distante de mim do que nós dois gostaríamos, para meu imenso pesar e esvaziamento de minha alma.

Era cedo e a mesa era posta. Corríamos pela casa e nos sentíamos felizes, como nunca mais é possível depois da infância. Em dezembro é a época das ameixas rôxas, aquelas bem ácidas, frutinhas de verão, e havia muitas numa vasilhas,servidas junto com algumas castanhas,outras frutas e fios de ovos. Uma a uma, roubamos as ameixinhas. Me lembro da recomendação de minha mãe: “Não vão comer tudo sozinhos,deixem para os outros!”. Mas éramos crianças e estávamos felizes. Comemos tudo sozinhos. As ameixas tinham um gosto ácido e doce ao mesmo tempo, como todas as coisas maravilhosas e indefiníveis, como vim a descobrir depois. Elas tinham o gosto do Natal. Tinham o gosto da minha infância em plena atividade. Tinham o gosto dos primos correndo pela casa. Da casa cheia da família, do dia em que todos se amavam. Gosto do que era limitado, do incomum, de transgressão. Tinham gosto de vida.

Aquela noite para mim ainda guarda um pouco do que foi começar a viver. Não era muito comum para mim enquanto criança ter a companhia de outras e meus primos eram a representação de um sopro de vida, da vida realmente acontecendo. E ainda o são. Mas hoje as ameixas têm gosto de ameixas, e em alguns natais temos a sensação de que a vida deixou de acontecer, como ela costuma fazer de vez em vez, pra depois recomeçar de novo.

Só nós dois provamos das ameixinhas. Mas ainda lembro do gosto que elas tinham, e é o gosto que a vida tem quando recomeça.

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