uma ótima complementaridade

É ótimo que haja esta complementaridade entre o título do blog e o assunto cujo simbolismo melhor exploramos até então. Nossas reuniões são jantares, nosso exercício de memória proposto está sendo o da memória de um jantar (ainda devo a minha!), lemos e conversamos sobre a Santa Ceia mas… e o abismo?

Estamos à beira. Penhasco, abismo… a Clariana mencionou certas contingências em que se coloca quem fica à beira.

Complementares que são no nosso projeto, o penhasco e o jantar, a nutrição biológica e o risco mecânico da queda, parecem-me de alguma forma também opostos. Parece-me questão de ordem tratar ora de um, ora de outro, em separado. Entretanto, a relação entre locação e ação, uma certa continência que a primeira exerce sobre a segunda e que o título do blog parece explicitar – afinal, onde se dá essa ação? Onde se passa esse filme? No penhasco? – há de nos obrigar a aproximar as idéias de refeição e jantar, de penhasco e abismo, em sua diversidade e, em certa medida, também em seu antagonismo simbólico.

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7 thoughts on “uma ótima complementaridade

  1. Abismo que cavastes com teus pés.
    À beira de um ataque de nervos.
    No limite do bom senso.

    Fiquei pensando que esse idéia dos bodes, que está bem presente bastante por causa dessas fotos (aleatoreidade determinante?) tem algo de um certa serenidade diante da idéia do abismo. Devagar e sempre, algumas vezes aparentemente contra os limites físicos. Estar no penhasco somente por ser o ponto mais alto, porque foia té onde se conseguiu subir. O que vem depois? O que está depois do limite?

  2. aqui matutando… cheguei a uma associação simples e tonta. mas de alguma forma lógica. não sei se vem ao caso, mas o meu grau etílico me impele a compartilhar minhas elucubrações.

    Após o topo (o limiar) só pode vir o abismo. e o abismo está a espero do salto. É ‘posta em risco’. O jantar entre todas as refeições é aquela que convida a análise do dia que passou. Estão todos sentados a mesa para comer. E falam sobre o dia, suas impressões, causos, e os projetos futuros. Mas o futuro imediato é a noite. E a noite é abismal. É o tempo das pulsões. É o momento das intimidades. O jantar é o derradeiro momento do dia… É quando se estabelecem os acordos para o dia seguinte. É o ultimo instante de sobriedade. Bebe-se vinho num jantar. Bebia-se vinho nos bacanais. O jantar é a refeição social. É a prévia do baile. É a ultima chance para a razão e ao mesmo tempo é a última tentação ao gozo. Após a janta há o sono ou o sexo. Há a letargia ou a liturgia. Após a janta há o abismo. E após o abismo… Não importa! O dia é inevitavel. Assim como o chão.

  3. sei que não tenho envolvimento direto com o filme e o meu envolvimento com seus realizadores infelizmente é bem menor do que o que eu gostaria. Mas já que estamos… vou meter o pitaco.

    Acabei de retomar a leitura do blog e é bem possivel que esteja provocando coisas já discutidas. Mas uma vez mais lhe atribuo ao alcool, minha pressa e intromissão. Porém me pergunto e procuro nessa paisagem extrema, mal habitada por bodes e cabras, que personagem jantaria em um penhasco? Que personagem precisa ou intima um penhasco. Que personagem merece tal paisagem? Porque servir-lhe um jantar? A situação jantar-penhasco é o fim ou o começo? Visualizo um casal… Um casal a espera de um terceiro. Um casal esperando Godot… (?) Um terceiro que de certa forma incorpora seus desejos e frustrações. E a comida esfria… O clima esfria… O amor esfria… Mas a paixão ainda é forte. Querem gritar. E quando gritam, o eco é quem responde… Eles tem fome. Godot é esquecido… Mas rapidamente o eco os faz recordar. Há um terceiro. Mantenham a pose. A comida se vê apetitosa. Dessa vez capricharam. Afinal é uma ocasião especial! Porque especial? Ela não o suporta mais. Ele desconfia de Godot. Mas sua raiva ecoa no abismo e se volta contra ele, que quebra. Não suporta a pressão. Ela o acalma. Sua voz soa como um ninar. O silencio combina com a paisagem. Mas eles tem fome e decidem comer. A comida está fria, mas o ruido dos talheres ecoa…

    Desculpem minhas disgressões. Mas a proposta de vocês me provocou imagens e sons. E tive que gritar esperando por ecos. Perdoem-me se já é caminho pisado. Mas espaços buscam personagens para ocupá-los. Quando não o contrário: personagens são ocupados por espaços…

  4. Na Argentina falavamos muito de ‘puesta en abismo’. Que é uma expressão teórica da literatura e do cinema. Se não me engano o Comolli trabalha bastante essa noção no Ver e Poder. (Infelizmente não sei a tradução em português). Sendo simplório é uma espécie de metalinguagem do enredo. Por exemplo Copia Fiel, do Kiarostami, discorre abertamente sobre os valores da cópia e termina sendo uma “cópia” de Viagem a Itália, do Rosselini (só a modo de observação: que filmaço!). Uma estrutura menor que se expande em uma macro estrutura especular, que reflete aquela primeira menor.
    Enfim… Apenas uma expansão na aproximação ao abismo.

    “«Puesta en escena» expresa a la vez la puesta en duda del mundo, su puesta en abismo como escena”. Jean Louis Comolli

    http://apostillasnotas.blogspot.com/2005/10/puesta-en-abismo.html

  5. Pedro, embora eu não tenha tempo agora, faço questão de me expressar rapidamente só para dizer que não há desculpas quanto aos seus gritos, pelo contrário! É isso aí, bicho! Na verdade fico imensamente feliz que nossa proposta o tenha provocado aponto de escrever essas valiosas linhas. Em breve elas terão resposta, seja bem-vindo!

  6. (e faltaram as respostas… lembro-me de quando li esse filme do Pedro, e de tudo o que quis ter dito também, tantos pontos tão legais que ele levantou , e agora já é tarde, o jantar se serviu e não enchi meu prato com tudo o que tinha. ai, vida)
    abismei

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