O jantar

 

a sensação era de que nada tinha gosto ou fazia sentido
e era apenas sensação
porque se diziam coisas e se comia com muito apetite
via suas mandíbulas movendo e dentro das bocas as línguas
em rápidos movimentos e câmbios deglutinadores
pelas gargantas descia aquela massa triturada
e subia algo como arrotos
que deviam ser sonoros
mas eu não podia ouvir
e as línguas trabalhavam essa coisa que devia ser um arroto sonoro
como que para lhe dar forma
eu estava mudo para o mundo e não podia ouvir
o que estava em meu prato não fazia sentido
tentei enfiar na boca, mas me caiu de volta
não conseguia cortar em pedaços pequenos como eles faziam
e fiz que não com a cabeça quando me olharam espantados
não sabia mais fazer aquilo então levantei o guardanapo branco à boca
fechei os olhos e tentei cuspir a baba
mas ela apenas escorreu lenta
a sensação que eu tinha era de que quase tudo era impossível
tive medo de derrubar o copo, então pensei em beber direto da garrafa
mas tive medo também, porque alguém com certeza estaria a recriminar-me
a baba parou de escorrer e baixei o guardanapo
fiz que não com a cabeça
para que entendessem que não tinha fome
então o garçom recolheu meu prato.

 

Sigval Schaitel

 

 

 

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2 thoughts on “O jantar

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