O filme que imaginei

Pois bem, caros. Não sei por que tanto me custou dar as caras a esse simpático blog, onde todo dia vejo bodes diferentes. Desde que ouvi falar do primeiro broto, me veio um interesse curioso e agradável, me divertia tentando imaginar onde isso ia dar. Agora já não é a mesma curiosidade, ela virou uma coisa mais séria e inquisidora, me apontando um dedo gordo na cara dizendo que chega de lengalenga, mulher!, pois que ainda tá longo o caminho pra chegar lá nesse fim, nesse jantar, nesse penhasco.
Mãos na massa então, cozinhemos!

Nas minhas tenras memórias, das primeiras imagens que vieram à tona, lembro-me de – fora o tal do bode – de algo que se assemelha, ao menos imageticamente, ao Fitzcarraldo do Gus, com um peso de relações familiares assim, meio lavourarcaicos. Talvez minha impensada associação com o penhasco, uma situação vertiginosa, uma refeição tão à beira da beira, que qualquer copo derramado ao acaso pode derramar a mesa toda. O céu cinza, o vento forte que não ajuda a aconchegar os presentes à mesa. E, apesar de ser um jantar, sempre imaginei uma luz do dia, de horas indefinidas. Quando de fato parei pra pensar, me surpreendi com a distração de não ter pintado um jantar à noite.
E aqui emendo com uma lembrança de jantar, pra fazer a malandragem de compensar todos os posts ausentes em um. Meu avô paterno, pouco me lembro, mas sempre se fazia presente nas refeições nas minhas férias na Argentina. Sentávamos todos em uma grande mesa. Ele era o dono da mesa, o dono das mulheres que cozinharam, o dono de todas suas proles e proles das proles, e isso se sentia no ar. Minha avó servia a todos, prato por prato, e a única função das crianças era comer em silêncio. Os adultos sim, poderiam falar sobre os mais variados assuntos, até que alguma censura fosse criada pelos olhos do meu avô. Sempre me pareceu estranha toda essa seriedade, e eu a aceitava com medo. O lado brasileiro da família era tão tranquilo! Não tinha nenhuma ameaça, por mais que meu avô materno também fosse a figura central, mas o clima era todo outro.
E mais que estranho, esse momento era dual. Pois as comidas eram deliciosas, e tudo era diferente pro meu cardápio brasileiro, tudo era incrível, dourado, brilhante, com vapores cheirando muito bem, queijos em fio se espichando entre o prato e a travessa, carnes saborosíssimas, delícias de uma vó que cozinhava com esse dom que só se adquire nascido o primeiro neto, todas as texturas que combinavam tão bem com a fome de um longo dia vivido aos máximos com primos distantes. E ao invés de aproveitarmos esse momento mágico como se deve, vestíamos nossos guardanapos de pano, sujos de tantas babas, e com eles vinha a sisudez. Uma noite (eram panquecas), me meti a palpitar no assunto dos grandes, não tanto por provocar ou querer me fazer ouvir, foi mais um deslize mesmo, esquecimento dessas regras que ninguém nunca me disse. Paguei caro, fui perseguida por um chinelo até o meu quarto, onde meu pai fechou a porta, baixou o chinelo, me olhou feio e passados uns minutos em que ele telepaticamente me disse pra eu me calar, pudemos voltar à mesa, sob olhares de toda a família, e eu pude engolir meu constrangimento acompanhado pelas panquecas já um pouco frias. Até hoje não lembro meu comentário, mas tenho a leve impressão de que era algo sem importância. Talvez tão sem importância que era por isso mesmo que eu devia ter ficado quieta.

Mas, voltando à imagem inicial, tampouco é esse o filme que quero fazer… mas ainda descubro 🙂

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One thought on “O filme que imaginei

  1. Acho forte essa história do te vô. Ela tem algo de universal…. as famílias não se reunem à mesa somente para nutrir-se e dividir a afeto, tem sempre todos os valores engessados para se forçar güela abaixo. Dizem “nunca diga desta água não beberei”, mas às vezes é preciso dizer e cuspir.

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